Escola pública de SP desenvolve biodigestor acessível e conquista o mundo, provando que inovação e sustentabilidade podem surgir em qualquer lugar.
Uma solução engenhosa para o manejo de resíduos orgânicos, desenvolvida por estudantes e professores da Escola Estadual Professor Sebastião de Oliveira Rocha, em São Carlos (SP), está atravessando fronteiras e ganhando reconhecimento internacional. O projeto de biodigestor de baixo custo, que transforma restos de alimentos em biogás e biofertilizante, foi apresentado no Camboja após um convite para participar de uma mostra de inovação voltada à sustentabilidade.
A iniciativa nasceu no clube Tesla, um grupo de pesquisa da escola de período integral, com o objetivo de solucionar um desafio comum a diversas comunidades: o destino dos resíduos orgânicos. Os resultados são impressionantes, com a transformação de matéria orgânica em recursos valiosos para a agricultura e geração de energia.
O grande diferencial deste biodigestor é o seu custo, **quase 50 vezes menor** que os modelos comerciais disponíveis no mercado. Enquanto equipamentos similares podem custar cerca de R$ 15 mil, a versão criada pelos alunos e professores tem um valor de produção em torno de R$ 320. Essa acessibilidade democratiza o acesso a tecnologias sustentáveis, como divulgado pelo Governo de São Paulo.
Inovação que Transforma Resíduos em Recursos Valiosos
Utilizando bactérias anaeróbicas, que prosperam na ausência de oxigênio, o biodigestor decompõe a matéria orgânica, gerando dois coprodutos essenciais: um biofertilizante líquido, ideal para a agricultura, e o biogás, que pode ser aproveitado para gerar energia ou para o funcionamento de fogões adaptados. Essa tecnologia já está sendo aplicada não apenas na escola, mas também na casa de uma estudante e em um assentamento rural da região, com resultados promissores.
No assentamento rural, o biofertilizante produzido pelo biodigestor tem demonstrado efeitos positivos em cultivos, como o de bananeiras, conforme observado pela professora Bárbara Daniela Guedes Rodrigues, que lidera o projeto desde 2020. A escola também planeja expandir o uso do biogás, com planos para automatizar o sistema e incluir monitoramento de parâmetros como pH e temperatura, além de sensores de segurança.
Educação Ambiental e Conscientização no Cotidiano Escolar
O projeto do biodigestor faz parte de uma estratégia mais ampla de educação ambiental implementada na Escola Sebastião de Oliveira Rocha. A professora de biologia e coordenadora pedagógica, Isabel Cristina Santana Kakuda, que acompanhou os alunos ao Camboja, explica que os resíduos orgânicos gerados pelos cerca de 700 alunos são reaproveitados em diversos projetos pedagógicos. Cascas de frutas e verduras alimentam composteiras que auxiliam na manutenção da horta escolar, e ações de conscientização buscam reduzir o desperdício de alimentos no refeitório.
A professora Bárbara complementa, destacando o trabalho conjunto para combater o desperdício de alimentos, incentivando os alunos a pegarem apenas o que conseguem comer. Essa abordagem integrada visa não apenas a gestão de resíduos, mas também a formação de cidadãos mais conscientes.
Reconhecimento Internacional e Inspiração para o Futuro
A participação no International Creativity and Innovation Award (ICIA) 2026 – Global Round, no Camboja, foi resultado de um convite direto, após o projeto ter sido reconhecido em programas e redes de inovação científica. A conexão com o pesquisador Marcos Nicolino, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), foi fundamental para a seleção e apresentação do projeto a avaliadores internacionais.
Na competição, o grupo brasileiro conquistou uma medalha e um certificado, um feito que emocionou a professora Bárbara. Para o estudante Brian Costa Viana, de 15 anos, a experiência foi gratificante e importante para disseminar a conscientização ambiental. Ele destacou a troca de informações e culturas com estudantes de outros países, como Filipinas, México e Japão, como um dos pontos altos da viagem.
Um Legado de Inovação e Oportunidades
O biodigestor de baixo custo não é o primeiro reconhecimento do clube Tesla. Em 2021, a escola conquistou o primeiro lugar nacional no Solve for Tomorrow, programa da Samsung. O projeto continua evoluindo, com planos de disponibilizar gratuitamente um manual e um site com orientações para que qualquer pessoa possa construir seu próprio biodigestor, reforçando o caráter não lucrativo e social da iniciativa.
Além do impacto ambiental e social, a participação em pesquisas e competições científicas tem aberto portas para os estudantes. Diversos ex-alunos seguiram carreiras em ciência, tecnologia e engenharia, ingressando em universidades de renome como a UFSCar e a USP, muitas vezes sem a necessidade de cursinhos preparatórios, como aponta a professora Bárbara. O objetivo é mostrar que soluções inovadoras e sustentáveis podem surgir de qualquer lugar, inclusive de uma sala de aula pública.

