Peru elege neste domingo o 9º presidente em dez anos de crise política, com polarização entre direita e esquerda
O Peru se dirige às urnas neste domingo, 7 de julho, para escolher seu nono presidente em apenas uma década, um reflexo da profunda crise política que assola o país. Desde 2016, a nação testemunhou renúncias e destituições em massa, evidenciando a instabilidade e o poder concentrado no parlamento peruano.
A disputa do segundo turno se concentra entre a direitista Keiko Fujimori, que obteve 17,1% dos votos no primeiro turno, e o esquerdista Roberto Sanchéz Palomino, com 12,0%. A eleição promete ser acirrada, com analistas apontando para um cenário de incerteza, apesar da vantagem inicial de Fujimori, filha do ex-ditador Alberto Fujimori.
A presença de Keiko Fujimori na disputa intensifica a polarização, remetendo a décadas de tensões políticas e sociais. A figura de Sanchéz, por sua vez, busca capitalizar o sentimento anti-fujimorista, representando uma força política que, segundo especialistas, pode ser majoritária. Conforme informação divulgada pela Agência Brasil, o antropólogo Salvador Schavelzon, da Unifesp, destaca que Sanchéz tem conseguido “representar o legado do anti-fujimorismo”, uma força política que ele acredita ser majoritária.
A polarização herdada e o legado de Alberto Fujimori
Keiko Fujimori não apenas herda os votos de seu pai, Alberto Fujimori, condenado por violações de direitos humanos, como também a forte rejeição a ele. A história de esterilizações forçadas de mulheres indígenas durante o governo de seu pai ainda ressoa na memória peruana, influenciando diretamente a percepção sobre sua candidatura.
Por outro lado, Roberto Sanchéz, deputado e aliado do ex-presidente Pedro Castillo, a quem serviu como ministro, propõe uma **reforma constitucional** para substituir a Carta Magna herdada do fujimorismo. Suas propostas incluem **reformas sociais** voltadas para a ampliação de direitos, buscando atrair o voto dos setores rurais e menos representados nas pesquisas tradicionais.
Geopolítica em jogo: O alinhamento da América do Sul sob escrutínio
A eleição peruana ganha contornos geopolíticos importantes para o continente. A América do Sul tem demonstrado uma tendência de **alinhamento mais estreito com os Estados Unidos**, visível em países como Equador, Bolívia, Argentina e Chile. A vitória de Fujimori poderia reforçar essa tendência, aproximando o Peru de governos de extrema-direita.
Salvador Schavelzon pondera que, mesmo uma vitória de Sanchéz não significaria uma ruptura drástica com Washington ou com governos de direita regionais. A fragilidade dos governos progressistas e nacionalistas na América do Sul impede, por ora, a formação de um polo “anti-imperialista” consolidado. “Ele vem de uma prática política mais pragmática”, comenta Schavelzon, “O interesse dele, caso ganhe, vai ser se consolidar, o que vai ser difícil por ter muita oposição no Congresso”.
Um histórico de instabilidade e a fragilidade democrática
A crise política no Peru se agrava com o histórico recente de presidentes que não completaram seus mandatos. Ollanta Humala, presidente entre 2011 e 2016, foi condenado por lavagem de dinheiro em um escândalo envolvendo a Odebrecht. Pedro Castillo, eleito em 2021 contra Keiko Fujimori, foi destituído, preso e condenado por tentativa de golpe de Estado.
A vice de Castillo, Dina Boluarte, assumiu a presidência e enfrentou violentos protestos contra a destituição, com um saldo de 49 mortos, segundo a Anistia Internacional. Boluarte, por sua vez, foi destituída pelo Congresso em outubro de 2025, em um ciclo de **instabilidade política** que se arrasta, culminando em gestões interinas breves e controversas.


