Mães reencontram nos estudos a chance de um futuro melhor com a EJA flexível em São Paulo
A Secretaria da Educação do Estado de São Paulo (Seduc-SP) expandiu significativamente a oferta da Educação de Jovens e Adultos (EJA) na modalidade de presença flexível. Este modelo inovador permite que os estudantes criem sua própria rotina de estudos, sem a obrigatoriedade de frequentar as aulas diariamente. Antes restrito a 43 CEEJAs, o programa agora atende alunos em 113 unidades de ensino, com um total de 56,7 mil matrículas em todo o estado.
A iniciativa tem se mostrado uma porta de esperança para muitas mães que, por diversas razões, precisaram interromper seus estudos. A flexibilidade oferecida tem permitido que essas mulheres retomem a formação básica e passem a idealizar e alcançar novos sonhos, como a conclusão do Ensino Médio e o ingresso no ensino superior.
Essas histórias de superação e dedicação são um testemunho do poder transformador da educação e da importância de políticas públicas que considerem as diferentes realidades dos estudantes. Conforme divulgado pela Educação SP, a expansão da EJA flexível tem empoderado centenas de mães a reescreverem suas trajetórias.
Ana Paula Alcântara: Superando dificuldades de aprendizagem aos 57 anos
Aos 57 anos, Ana Paula Alcântara, mãe de um filho de 40 anos, compartilha sua jornada de retomada aos estudos. Ela abandonou a escola ainda jovem, enfrentando dificuldades de aprendizagem e, posteriormente, priorizando o trabalho para criar o filho. Por muito tempo, trabalhos informais e indicações permitiram sua subsistência, mas a falta do Ensino Médio começou a se tornar um obstáculo.
“Hoje tento fazer cadastros e não consigo avançar porque não tenho Ensino Médio ou ensino superior”, relata Ana Paula, que hoje cursa a EJA flexível na Escola Estadual Padre Antonio Vieira, na capital paulista. Ela relembra que, há 20 anos, tentou voltar a estudar, mas não encontrou o mesmo apoio que vivencia atualmente.
“Eu sempre quis terminar a escola para uma realização pessoal, por me sentir inferior às minhas amigas e aos colegas de trabalho”, confessa. Agora, com o incentivo de professores dedicados, ela voltou a ler e planeja cursar faculdade, sonhando em um dia poder ensinar. “Na escola até já me disseram que um dia eu posso me tornar colega dos professores”, finaliza, com um sorriso.
Lidia Maria Lins Zanini Cordeiro: O magistério como meta após anos dedicados à família
A 10 quilômetros dali, na Escola Estadual Silva Jardim, Lidia Maria Lins Zanini Cordeiro, de 48 anos, vivencia uma história semelhante. Viúva e mãe de dois filhos, ela precisou adiar seu sonho de cursar magistério em 1996 para se dedicar ao trabalho e à família. “Eu perdi muitos anos nessa vida, eu tenho a vocação para ensinar e eu deixei isso de lado”, diz.
Com os filhos mais independentes, Lidia aproveita os momentos livres de seu trabalho como manicure para estudar em casa, frequentando a escola apenas para avaliações e plantões. Seu objetivo é concluir o Ensino Médio ainda este ano para, então, cursar pedagogia ou terapia ocupacional. Lidia também tem uma relação próxima com a escola, onde seu filho estuda no Ensino Fundamental e ela atua como profissional de apoio a um estudante com TEA.
A filha de Lidia chorou de felicidade ao ver a mãe retomar os estudos, reforçando a importância do exemplo familiar. “Eu digo aos meus filhos que me sacrifico para que eles não passem pelo que eu passei e que o estudo é muito importante para eles”, afirma.
Edna Florindo da Silva: Prova de que idade não é barreira para o conhecimento
Na mesma escola, Edna Florindo da Silva, de 63 anos, demonstra que a busca por conhecimento não tem limite de idade. Parando de estudar em 1980, ela decidiu que, após criar os filhos, era o momento de sua própria realização. “O tempo não importa, a sua idade não importa, o que importa é o seu desejo, a sua realização”, incentiva.
Edna, que trabalha como assistente administrativa em home office, já foi aprovada em disciplinas como biologia e matemática. Ela estuda nos finais de semana e feriados, conciliando as aulas com suas atividades na igreja e cursos de novas tecnologias. Seus planos são cursar administração ou contabilidade. “Enquanto tem vida, vai pra cima que você consegue”, conclui.
Como funciona a EJA flexível
O modelo de presença flexível da EJA permite que o estudante estruture seu percurso formativo de maneira personalizada. Ele pode iniciar pelos componentes curriculares com os quais tem maior afinidade ou necessidade, avançando gradualmente com base em roteiros de estudo e acompanhamento docente. As avaliações são realizadas conforme o avanço do aluno, garantindo a consolidação do aprendizado antes de seguir para os próximos conteúdos.
Todas as escolas que oferecem o Ensino Médio nesta modalidade disponibilizam dois itinerários de aprofundamento curricular: um em Matemática e outro em Linguagens e suas Tecnologias. Estes itinerários são desenvolvidos por meio de roteiros de estudo, oficinas e atividades presenciais, visando diversificar as escolhas e atender aos interesses formativos dos estudantes.
O modelo adota metodologias de ensino individualizado, com opções de projetos, oficinas e diferentes instrumentos de avaliação, como provas e trabalhos. Cada disciplina exige quatro avaliações processuais e uma avaliação final, com um intervalo mínimo de três dias letivos entre elas.
Anos finais do Ensino Fundamental e matrícula
Nas unidades dos CEEJAs, além do Ensino Médio, também são oferecidos os anos finais do Ensino Fundamental (6º ao 9º ano). Interessados podem optar pelo aproveitamento de estudos anteriores, mediante comprovação. Na ausência de documentos, avaliações diagnósticas são aplicadas para identificar o nível de conhecimento do candidato.
Para efetuar a matrícula, é necessário apresentar RG, histórico escolar e comprovante de residência em qualquer escola estadual ou no balcão do Poupatempo. O cadastro também pode ser realizado virtualmente na SED.
EJA de Presença Regular
Complementando a oferta flexível, a Seduc-SP mantém a EJA de presença regular em 600 escolas estaduais. Neste modelo, os estudantes participam de encontros coletivos regulares, com acompanhamento contínuo da aprendizagem e organização pedagógica por classes, garantindo a progressão curricular e o cumprimento da carga horária.
A oferta simultânea dos dois modelos amplia o acesso à educação, permitindo que jovens, adultos e idosos escolham a modalidade que melhor se adapta às suas rotinas, condições de trabalho e necessidades de aprendizagem.


