Senegal se consolida como ponte diplomática e busca protagonismo no Sul Global, alinhado aos interesses do Brasil em um cenário internacional em transformação.
A capital senegalesa, Dacar, palco do 10º Fórum Internacional de Dacar sobre Paz e Segurança na África, emerge como um ponto estratégico de encontro e diálogo para o continente africano e o mundo. A proximidade geográfica com as Américas, a apenas 2,9 mil quilômetros do Brasil, sublinha a importância de Dacar como hub para discussões globais.
O evento, que reuniu chefes de Estado e representantes de 38 países, incluindo 18 nações africanas e dez organismos internacionais, reforça o papel do Senegal como um ator influente na busca por soluções endógenas para os desafios de segurança e desenvolvimento do continente.
O Brasil, representado pela embaixadora Daniella Xavier, compartilha com o Senegal o anseio por um protagonismo crescente no chamado Sul Global. Essa busca por maior influência em alianças de países em desenvolvimento é um tema central para ambas as nações, conforme apontam especialistas em relações internacionais. A informação foi divulgada pela Agência Brasil.
Senegal: Um Pilar de Estabilidade em um Continente Desafiador
O Senegal se destaca na África por sua notável estabilidade política e histórica de paz, um feito significativo em um continente frequentemente marcado por conflitos internos e regionais, terrorismo e crime organizado. O diplomata Leonardo Santos Simão, chefe do Escritório da ONU para a África Ocidental e Sahel, ressalta que o país nunca sofreu um golpe de Estado, o que o torna um modelo de desenvolvimento pacífico.
Enquanto a região do Sahel enfrenta uma escalada de ameaças de grupos extremistas, com Mali, Burkina Faso e Níger liderando estatísticas de terrorismo global, o Senegal se posiciona como um centro de diálogo para enfrentar essas complexidades. O país busca ativamente soluções sustentáveis para os desafios de segurança e soberania.
O Fórum Internacional de Dacar, com sua agenda abrangente, serve como plataforma para o Senegal demonstrar sua capacidade de mediação e liderança, projetando uma imagem de Estado estável e com vocação para a resolução de conflitos. A participação de representantes de países fora da África evidencia o alcance e a relevância do evento.
O Sul Global como Plataforma de Diálogo e Soberania
O conceito de Sul Global, defendido pelo Brasil e abraçado pelo Senegal, ganha força como um espaço de articulação entre nações em desenvolvimento. Segundo Leonardo Santos Simão, o Sul Global permite identificar desafios comuns e fortalecer a interlocução com o Norte Global, buscando soluções para a pobreza e a exclusão.
A soberania dos países africanos é um imperativo crescente, e o Senegal está na vanguarda dessa discussão, defendendo a revisão das relações históricas com potências do Norte. A presença de delegações de países europeus com histórico colonial, como França e Portugal, no fórum, sublinha a importância desse debate sobre novas dinâmicas de poder.
A busca por um protagonismo autônomo na definição de prioridades estratégicas é um esforço continental. Questões como mudanças climáticas, pandemias, cibersegurança e o desenvolvimento tecnológico são temas cada vez mais integrados às agendas africanas, refletindo um desejo de moldar o próprio futuro.
Soft Power e a Projeção Internacional do Senegal
O professor moçambicano Carlos Lucas Mamboza, especialista em Estudos Estratégicos, Segurança e Defesa, define a realização do fórum como um claro instrumento de **soft power**. O Senegal utiliza sua capacidade de atrair e persuadir, em vez de coerção, para influenciar as relações internacionais.
O país busca projetar uma imagem de estabilidade institucional e de capacidade para mediar conflitos, não apenas na região do Sahel, mas em toda a África. O tema do fórum deste ano, “África enfrenta os desafios da estabilidade, integração e soberania: Quais soluções sustentáveis?”, reflete o dilema africano de equilibrar desenvolvimento interno, integração regional e preservação da soberania em um cenário global de intensa competição entre potências.
A capacidade do Senegal de sediar um evento de tamanha magnitude demonstra sua crescente influência e seu compromisso em encontrar soluções autônomas para os desafios continentais. Essa abordagem de **soft power** é crucial para fortalecer sua posição no cenário internacional.
Senegal e Brasil: Aliança Estratégica no Atlântico Sul
A diplomacia senegalesa se estende à América do Sul, com um vínculo cada vez mais forte com o Brasil. O país é membro da Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul (Zopacas), uma aliança que visa manter o Atlântico Sul livre de conflitos, e o Brasil assumiu recentemente a liderança do grupo.
Carlos Lucas Mamboza destaca que o Senegal atua como um elo vital entre a África Ocidental e o espaço estratégico do Atlântico Sul, conectando-se diretamente aos interesses brasileiros. Essa cooperação Sul-Sul é fundamental para a defesa de reformas na governança global, incluindo a expansão do Conselho de Segurança da ONU, uma antiga demanda de países africanos e sul-americanos.
O protagonismo buscado pelo Senegal foi reconhecido pela delegação dos Estados Unidos, que saudou a liderança africana em questões de segurança e o potencial transformador dos países do continente quando traçam seu próprio caminho. Os EUA veem na África um parceiro essencial na cadeia de exploração de minerais críticos, buscando construir cadeias de suprimentos seguras e comercialmente viáveis.


