Cintia Chagas dedica crônica à desafeta e transforma baixaria em parte da obra
Atacar ideias e pessoas através de obras literárias não é novidade. Ora, até Sócrates tornou-se alvo de Aristófanes em “As Nuvens”. Todavia, usar um livro – ou parte dele – para deferir ataques pessoais no nível da baixaria, por causa de ‘macho’? Foge ao bom gosto, à etiqueta… Até à acidez d’um Nelson Rodrigues.
Pois, deparei-me com tal afronta à literatura no livro “Sexo, Amor e Hipérboles”, de Cintia Chagas. Claro, esperava crônicas picantes, atrevidas, ácidas… Mas, perdi o interesse ao ler “A Beata da Internet”, onde a autora sequer tebta disfarçar um ataque pessoal à influenciadora Pietra Bertolazzi.
Corre o boato, desde a época de sua separação relâmpago com o deputado estadual Lucas Bove, que a pivô do fim do casamento seria Bertolazzi. As referências transparecem, principalmente quando a autora fala do apelido – concedido como forma pejorativa – e aponta ao passado (“não santa”) da influenciadora – convertida ao catolicismo há poucos anos, e que outrora foi DJ e participante de reality show. Chagas parece não crer na conversão de Bertolazzi.
Mas, a pior baixaria foi acusar a ‘personagem’ – à qual chama Maria Clara – de ser amante de três homens casados – aliás, não sabia que podia-se usar “amante” pejorativamente quando o outro não é casado, mas enfim… Tal referência extrapolou o limite entre sátira e ataque banal e mesquinho. Que Chagas tivesse ciúmes de alguma proximidade de Bove com a influenciadora, vá lá. Porém, dedicar uma crônica na própria obra a atacar escancaradamente?
“Santa autofabricada em estúdio, tornou-sedocente de uma espécie de espiritualidade domesticada”. Trecho retirado da página 43. E Pietra mantém na descrição de seu Instagram os termos “espiritualidade” e “comportamento”. Entretanto, insinua possuir provas em vídeo das supostas atividades promíscuas da desafeta. Misturando a insinuação com fantasia (ou ameaça?) de exposição da “Fariseia!”. Por fim, escolheu versículo bíblico a dedo para ilustrar: “Não há encoberto que não venha a ser revelado” (Lucas12,2).
O estilo não deixa muito a desejar, o domínio da gramática é inegável – apesar de ser de categoria inferior ao domínio da língua. Há crônicas boas, outras razoáveis, mas a autora perde-se ao misturar ressentimentos frios com sátira.


