Acordos de Abraão sob pressão: o que está em jogo para os palestinos?
A exigência de Donald Trump para que mais países árabes se juntem aos Acordos de Abraão tem gerado preocupação entre especialistas em Oriente Médio. Estes acordos, que visam normalizar as relações entre nações árabes e Israel, podem, segundo analistas, isolar ainda mais os palestinos e facilitar ações de Israel em territórios ocupados.
Assinados inicialmente por Marrocos, Emirados Árabes Unidos, Bahrein e Sudão, os pactos já contam com a adesão futura do Cazaquistão. A nova investida de Trump busca incluir Arábia Saudita, Catar, Paquistão, Turquia, Egito e Jordânia, condicionando negociações com o Irã à assinatura dos acordos.
Conforme avaliação da professora de relações internacionais Rashmi Singh, da PUC Minas, os Acordos de Abraão são percebidos pelos palestinos como uma traição por parte de países árabes. “Os acordos alteraram fundamentalmente a diplomacia do Oriente Médio ao tentar convencer os Estados árabes sunitas a desvincular a normalização das relações com Israel da causa palestina, pondo fim, na prática, ao consenso árabe de longa data”, explicou Singh à Agência Brasil.
A estratégia de Trump e a visão palestina
Donald Trump tem defendido publicamente a adesão de mais países aos Acordos de Abraão, argumentando que as nações signatárias já experimentaram um “boom econômico”. Ele chegou a afirmar em redes sociais que a Arábia Saudita e o Catar deveriam assinar imediatamente, e que outros países deveriam seguir o exemplo, sob pena de não participarem de negociações de paz com o Irã.
No entanto, especialistas como o professor Mohammed Nadir, da UFABC, veem essa estratégia como uma forma de consolidar a subordinação dos países árabes às políticas de Israel e dos Estados Unidos na região. “O objetivo é livrar Israel do isolamento em que se encontra após os crimes perpetrados contra os palestinos de Gaza”, comentou Nadir.
Consequências para o futuro palestino
A professora Rashmi Singh alerta que a priorização de interesses econômicos e de segurança em detrimento da criação de um Estado palestino por parte dos países signatários pode ter consequências graves. “Se Trump for bem-sucedido, a consequência mais óbvia será a catástrofe para qualquer futuro Estado palestino e dará carta branca a Israel para continuar sua brutalidade, ocupação militar, regime de apartheid, bem como a limpeza étnica dos palestinos e o roubo de suas terras”, avaliou.
O ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023 é visto por muitos analistas como uma tentativa de paralisar as negociações em andamento, especialmente com a Arábia Saudita. A rejeição do Paquistão à proposta de Trump, afirmando não ter “obrigação de acatar essa exigência”, destaca a divisão de opiniões sobre os acordos.
O fantasma da Nakba e a expansão israelense
O professor Mohammed Nadir associa a política de Trump a uma visão “sionista” e a crenças messiânicas de extremistas israelenses que vislumbram um “grande Israel” sem a população palestina. Ele aponta os ataques em Gaza e na Cisjordânia, assim como a expansão de colonatos e o roubo de terras, como indícios de um plano para eternizar a Nakba, termo palestino que se refere à expulsão de cerca de 750 mil palestinos de suas casas com a criação do Estado de Israel em 1948.
Recentemente, organizações de direitos humanos têm denunciado a expansão de assentamentos ilegais na Cisjordânia e ataques de colonos israelenses. Em resposta, a União Europeia aprovou sanções contra colonos por “expansão ilegal dos colonatos” e “anexação de grandes partes da Cisjordânia ocupada”.
Israel amplia controle em Gaza e desafia aliados
O governo de Benjamin Netanyahu anunciou a intenção de ampliar o controle israelense sobre a Faixa de Gaza para 70%, aumentando a ocupação atual de 60%. Essa medida foi criticada pela Alemanha, um dos principais aliados europeus de Israel, que se opôs a qualquer divisão permanente de Gaza. Membros do governo israelense têm defendido a emigração de palestinos de Gaza e a anexação da Cisjordânia, rejeitando a construção de um Estado palestino independente.


