Especialistas apontam que a nova política dos EUA para a América Latina pode minar a autonomia brasileira, abrindo brechas para ingerências políticas e militares sob o pretexto de combater o terrorismo.
A recente decisão do governo dos Estados Unidos de classificar facções criminosas brasileiras como grupos terroristas levanta sérias preocupações entre especialistas em geopolítica e relações internacionais. Segundo analistas consultados pela Agência Brasil, essa medida se alinha a uma nova doutrina da administração Trump, que propõe uma “soberania limitada” para os países latino-americanos, submetendo suas decisões aos interesses de Washington.
Essa perspectiva sugere que a classificação de organizações como terroristas pode servir como um pretexto para intervenções políticas e até mesmo militares. A análise aponta que os EUA, sob essa nova abordagem, estariam buscando afirmar sua proeminência na região, potencialmente quebrando a independência dos países e reforçando sua hegemonia nas Américas.
A estratégia nacional de segurança dos EUA, publicada em novembro de 2025, já indicava a intenção de consolidar a influência americana na América Latina. Essa política, segundo os especialistas, é uma resposta à crescente influência econômica e tecnológica da China, inserida na disputa global pelo controle da economia mundial. Conforme informação divulgada pela Agência Brasil, essa decisão sobre facções brasileiras reforça essa visão.
Risco de intervenção direta sem autorização congressiona
O professor de relações internacionais da USP, Paulo Borba Casella, destaca que a lei americana, ao classificar uma entidade como terrorista, permite ao governo dos EUA atacar seus agentes sem a necessidade de uma declaração formal de guerra ou autorização do Congresso americano. Ele compara a situação com o que ocorreu na Venezuela, onde o governo Trump agiu contra figuras políticas sob o mesmo enquadramento legal.
Essa prerrogativa legal, segundo Casella, confere aos Estados Unidos uma margem de manobra considerável para agir unilateralmente em outros países. A classificação de grupos como terroristas, portanto, pode se tornar uma ferramenta para justificar ações que ultrapassem os limites da cooperação internacional e invadam a soberania nacional de outros países.
Doutrina da ‘soberania limitada’ em ação
O cientista político Francisco Carlos Teixeira da Silva, especialista em relações internacionais e professor aposentado da UFRJ, reforça que a decisão se insere na chamada “doutrina da soberania limitada”. Ele explica que, sob essa ótica, os Estados Unidos consideram que os países da América Latina possuem uma soberania que é, na verdade, restrita pelos interesses americanos.
“Os EUA estabelecem o fato de que os países da América Latina têm soberania limitada pelos interesses americanos. E eles podem intervir sempre que acharem necessário, conforme os parâmetros americanos”, afirmou Teixeira à Agência Brasil. Essa visão sugere uma redefinição das relações de poder na região, com os EUA se posicionando como árbitros de questões de segurança e política.
Histórico de intervenções e a violação da soberania mexicana
O historiador Teixeira cita o caso do México, onde facções como o cartel de Jalisco foram classificadas como terroristas pelos EUA. Ele relata que, logo após essa classificação, uma equipe da CIA foi enviada ao México sem autorização prévia do governo mexicano. Esse episódio, segundo ele, demonstra que a classificação de terrorismo não ocorre isoladamente, mas sim acompanhada de ações concretas que violam a soberania nacional.
A morte de dois agentes da CIA no México em abril deste ano, em um acidente de carro, evidenciou essa questão. O governo mexicano expressou descontentamento com a infiltração não autorizada dos agentes, ressaltando a falta de conhecimento e consentimento do governo central sobre a operação. Isso reforça a preocupação de que a classificação de terrorismo possa ser usada para justificar operações secretas e invasivas.
Subordinação de políticas domésticas e repressão a movimentos sociais
Para o professor de economia internacional da UFRJ, Luiz Carlos Prado, a decisão americana visa impor ao Brasil uma “soberania limitada”. Ele argumenta que isso significa que o Brasil não deve ser um país autônomo, com políticas próprias baseadas em seus interesses nacionais, mas sim um “aliado menor” sob a liderança americana.
Prado alerta que a designação de facções como terroristas pode abrir precedentes perigosos para o Brasil. Os EUA poderiam, segundo ele, indicar que determinados grupos internos, inclusive movimentos sociais, apoiam essas organizações terroristas, mesmo sem apresentar provas concretas. Isso criaria uma justificativa para reprimir segmentos específicos da sociedade brasileira.
O professor da UFRJ lembra que os EUA historicamente demonstram dificuldade em reconhecer a soberania de outros países e em respeitar tratados internacionais. Essa nova decisão, na sua visão, aumenta a margem de pressão sobre o Brasil, utilizando argumentos que podem não ser comprovados para justificar intervenções políticas, como já ocorreu em outros conflitos internacionais.


