Líbano em Guerra: Brasileiros Relatam Fuga, Destruição e a Angústia da Sobrevivência em Meio a Bombardeios Intensos
A guerra entre Israel e o grupo político-militar Hezbollah transformou o sul do Líbano em um cenário de destruição e desespero. Milhares de pessoas, incluindo a maior comunidade de brasileiros no Oriente Médio, vivem sob a constante ameaça de bombardeios, forçados a abandonar suas casas e enfrentar um futuro incerto.
O conflito, que já deixou centenas de mortos e feridos, intensificou-se recentemente, forçando o êxodo de mais de um milhão de pessoas de suas residências. A comunidade brasileira, estimada em 22 mil pessoas em 2023, enfrenta agora o drama de viver em meio à guerra.
Relatos de brasileiros que residem no Líbano pintam um quadro desolador de raiva, medo e incerteza. A destruição de casas, a paralisação de negócios e a constante sensação de perigo marcam o cotidiano de quem vive no país, conforme informações divulgadas pela Agência Brasil.
Hussein Melhem: A Fuga de Tiro e a Dor da Perda
Hussein Melhem, libanês naturalizado brasileiro de 45 anos, vive em Tiro, uma das cidades mais atingidas pelos combates. Ele relata o momento em que acordou com o prédio tremendo devido aos mísseis. “Estava dormindo e a minha esposa me acordou assustada. Parece um terremoto os mísseis passando por cima do prédio direto para Israel. Aí saímos de casa imediatamente apenas com um pouco de roupa”, conta.
A situação gera em Hussein um misto de raiva e tristeza. “Estamos gastando tudo que a gente tem. Não posso voltar para trabalhar. Não consigo dormir direito por causa da preocupação. O pessoal está muito bravo com tudo isso”, desabafa.
Sua padaria em Tiro está fechada devido ao conflito. “No Sul, você não vê quase nenhum carro na rua. É muita destruição. Ontem bombardearam 12 pontes que acabaram com o movimento para o sul do Líbano. Tem uma ponte só”, lamenta.
O cenário nas ruas é de desolação, com famílias inteiras vivendo sob chuva e frio. “As ruas, nem te falo, é muita tristeza. Você chora vendo as barracas, as pessoas embaixo da chuva, no frio”, descreve, pai de três filhas.
Aly Bawab: O Medo Constante em Beirute
Aly Bawab, 58 anos, brasileiro-libanês que reside em Manaus, viajou ao Líbano para visitar a família e se viu preso no início dos ataques. Após presenciar um prédio desmoronar em sua cidade natal no sul do país, decidiu se mudar para Beirute.
Na capital, os bombardeios são diários. “É dia e noite, não tem horário. Hoje tivemos alguns momentos de paz durante o dia, apesar dos aviões militares do inimigo ficarem ultrapassando a velocidade do som para fazer um tipo de explosão no ar e assustar as pessoas”, relata.
Aly tenta manter a calma para não desesperar a família, mas o medo é palpável. “Medo com certeza, mas você tem que manter a calma. Mas as crianças em volta sentem. No último bombardeio, que atingiu dois apartamentos em um prédio alto aqui próximo, o corpo sentiu a vibração da explosão. O corpo treme sem você ter controle”, descreve.
Amigos de Aly perderam familiares e muitos não conseguiram sair do sul. “É bastante traumatizante, você vê essa situação em que você se encontra, em que as pessoas não sabem o que fazer ou quanto tempo vai durar essa guerra”, completa.
A Guerra no Sul do Líbano: Uma Estratégia de Israel?
Beatriz Bissio, historiadora e professora da UFRJ, avalia que Israel adota uma estratégia semelhante à da Faixa de Gaza no Líbano. “É mais ou menos uma versão libanesa do genocídio em Gaza. O que Israel está propondo é repetir o genocídio, particularmente no sul do Líbano, uma vez que frustrou-se a expectativa da liderança israelense de ter aniquilado o Hezbollah”, afirma a especialista.
Os bombardeios israelenses se intensificaram após o Hezbollah retomar ataques contra Israel em retaliação a ataques recentes e ao assassinato do líder supremo do Irã, Ali Khamenei. A Força de Defesa de Israel (FDI) alega ter atingido cerca de 2 mil alvos e 570 membros do Hezbollah desde 2 de março.
Por outro lado, o Hezbollah informa diariamente realizar ataques contra alvos israelenses. O grupo relata ter realizado 39 operações militares apenas em uma sexta-feira recente.
Histórico do Conflito e o Sofrimento da População
O conflito entre Israel e Hezbollah tem raízes na década de 1980. O grupo xiita foi criado em resposta à invasão israelense do Líbano. Em 2000, o Hezbollah conseguiu expulsar os israelenses, tornando-se um partido político influente.
A atual fase do conflito está ligada à guerra na Faixa de Gaza, com o Hezbollah lançando foguetes em solidariedade aos palestinos. Um cessar-fogo foi costurado em novembro de 2024, mas ataques esporádicos persistem.
Beatriz Bissio destaca o imenso sofrimento da população civil no sul do Líbano, com aldeias e colheitas destruídas. “É indescritível o sofrimento da população, mas também é indescritível, no sentido inverso: a resiliência e a decisão de não abandonar essa terra”, pontua, ressaltando a ancestralidade da presença dessas populações na região.


