Irã e Hezbollah atribuem cessar-fogo à união do Eixo da Resistência
O governo iraniano e o grupo político-militar Hezbollah reivindicaram o cessar-fogo no Líbano como um triunfo direto da união e capacidade de combate do “Eixo da Resistência”. Esta aliança, formada por grupos que se opõem firmemente às políticas de Israel e dos Estados Unidos no Oriente Médio, é vista como a principal força por trás da recente trégua.
Enquanto o presidente dos EUA, Donald Trump, busca apresentar o acordo como um resultado de ações da Casa Branca, o Irã e o Hezbollah veem a trégua como uma conquista de sua própria resistência e estratégia unificada. A exigência de um cessar-fogo no Líbano era, inclusive, uma condição de Teerã para as negociações com Washington.
O anúncio de um cessar-fogo, que entrou em vigor em 8 de abril, foi seguido pela declaração do Irã sobre a abertura do Estreito de Ormuz para embarcações comerciais, sinalizando uma nova fase nas relações regionais. Conforme divulgado pelo partido-milícia Hezbollah e noticiado pela TV Al-Manar, o grupo realizou 2.184 operações militares em 45 dias contra o exército israelense, uma média impressionante de 49 ações diárias.
Hezbollah detalha operações e mantém prontidão
As operações do Hezbollah visaram especificamente as “forças de ocupação de Israel” dentro do território libanês. Além disso, os ataques alcançaram locais, quartéis e bases militares dentro de Israel e dos territórios palestinos ocupados, chegando a uma distância de até 160 quilômetros da fronteira. Em comunicado oficial, o Hezbollah declarou que “nossa mão permanecerá no gatilho em antecipação a qualquer violação ou traição pelo inimigo”.
A declaração enfatiza a adesão contínua à “opção de confronto” e a defesa do país, prometendo permanecer firmes “até o último suspiro”. Essa postura demonstra a determinação do grupo em manter sua capacidade de resposta e vigilância contra possíveis ações hostis.
Irã reforça a unidade do “Eixo da Resistência”
Mohammed B. Ghalibaf, chefe do Parlamento iraniano e líder da delegação negociadora com os EUA, corroborou a narrativa de que o cessar-fogo é um resultado direto da Resistência do Hezbollah e da coesão do Eixo da Resistência. Ele afirmou que “a Resistência e o Irã são uma só entidade, seja na guerra ou no cessar-fogo”.
Ghalibaf também criticou a política americana, afirmando que “cabe à América recuar do erro de ‘Israel em primeiro lugar’”. Ele ressaltou que o cessar-fogo foi conquistado pela resistência e que será tratado com cautela, mantendo a união até a “verificação completa da vitória”. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Ismail Baghaei, por sua vez, argumentou que o cessar-fogo foi fruto dos esforços diplomáticos de Teerã, que consistentemente enfatizou a necessidade de uma trégua em toda a região.
Israel em surpresa e críticas internas
A notícia do cessar-fogo pegou de surpresa o governo do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu. Ministros do gabinete teriam recebido a informação “com surpresa”, segundo o jornal israelense The Times of Israel. Netanyahu teria concordado com a trégua a pedido de Trump, o que gerou críticas da oposição, que classificou o acordo como “imposto” a Israel.
Apesar do anúncio, um oficial militar israelense informou ao portal Ynet que as tropas continuariam no território libanês, indicando uma possível complexidade na implementação do acordo. A decisão de Netanyahu de avançar para a ocupação do Sul do Líbano até o Rio Litani, a 30 quilômetros da fronteira, parecia estar em curso antes do anúncio da trégua.
Contexto histórico e desdobramentos do conflito
A atual fase do conflito entre Israel e Líbano iniciou em outubro de 2023, com ataques do Hezbollah ao norte de Israel em solidariedade ao povo palestino. Um cessar-fogo anterior, costurado em novembro de 2024, não foi respeitado por Israel. A escalada recente se intensificou após ataques contra o Irã e o assassinato do líder supremo iraniano, Ali Khamenei, em 28 de fevereiro, levando o Hezbollah a intensificar seus ataques.
O conflito entre Israel e Hezbollah tem raízes profundas, remontando à década de 1980, quando o grupo xiita foi criado em resposta à invasão israelense do Líbano. O Hezbollah conseguiu expulsar os israelenses em 2000 e se consolidou como partido político. O Líbano já sofreu ataques israelenses em 2006, 2009 e 2011, evidenciando um histórico de tensões e confrontos na região.


