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Líbano: brasileiros relatam medo e incerteza em meio à escalada do conflito

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Última atualização: 03/21/2026 12:52
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Contents
  • A vida sob bombardeios: o drama de Hussein Melhem
  • Incerteza e deslocamento: a experiência de Aly Bawab
  • A escalada do conflito e o cenário regional no Líbano
  • Contexto histórico: a relação entre Israel e Hezbollah
  • Milhares de pessoas, incluindo brasileiros, enfrentam deslocamento e destruição no Líbano devido ao conflito.
  • Relatos pessoais descrevem o impacto emocional e financeiro da guerra, com bombardeios diários e perda de moradias.
  • A escalada do confronto entre Israel e Hezbollah intensifica a crise humanitária e a incerteza regional.

A escalada do conflito entre Israel e o grupo político-militar Hezbollah transformou o cenário do Líbano, especialmente em sua região sul, em um palco de drama humanitário. Milhares de pessoas, sob chuva e frio intenso, compõem a paisagem de ruas e estradas em cidades libanesas, forçadas a abandonar suas casas. Em menos de três semanas, a violência esvaziou o sul do país, expulsou mais de 1 milhão de pessoas de seus lares e resultou em mil mortos e 2,5 mil feridos, gerando um profundo sentimento de raiva, medo e incerteza entre a população, incluindo os brasileiros que residem ou visitam a nação.

A situação é particularmente crítica para famílias que se veem sem moradia e sem perspectivas de retorno. Os bombardeios e confrontos diários não apenas destroem infraestruturas, mas também desfazem a rotina e a segurança de comunidades inteiras, deixando um rastro de sofrimento e desespero. A comunidade internacional observa com preocupação a intensificação das hostilidades, enquanto os civis, como os brasileiros no Líbano, buscam maneiras de sobreviver e encontrar um refúgio seguro.

A vida sob bombardeios: o drama de Hussein Melhem

Hussein Melhem, um libanês naturalizado brasileiro de 45 anos, vive com sua família na cidade de Tiro (Tyre), no litoral sul do Líbano, uma das áreas mais atingidas pelos combates e bombardeios. Ele relata ter sido acordado na madrugada do dia 2 de março com o prédio tremendo, um evento que o levou a deixar a cidade imediatamente. “Estava dormindo e a minha esposa me acordou assustada. Parece um terremoto os mísseis passando por cima do prédio direto para Israel. Aí saímos de casa imediatamente apenas com um pouco de roupa”, conta Melhem.

A experiência de Hussein e sua família é um reflexo da realidade de muitos. Ele descreve a situação como geradora de raiva, tristeza e incertezas profundas. “Estamos gastando tudo que a gente tem. Não posso voltar para trabalhar. Não consigo dormir direito por causa da preocupação. O pessoal está muito bravo com tudo isso. Estão cobrando US$ 2 mil dólares por um aluguel. Minha casa própria foi bombardeada”, detalha. Proprietário de uma padaria em Tiro, Hussein não pode mais retornar ao trabalho devido ao conflito, o que agrava a já precária situação financeira. Ele lamenta a destruição generalizada, mencionando que “no Sul, você não vê quase nenhum carro na rua. É muita destruição. Ontem bombardearam 12 pontes que acabaram com o movimento para o sul do Líbano. Tem uma ponte só”.

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Pai de três filhas de 17, 15 e 7 anos, Hussein Melhem descreve um cenário desolador nas ruas, repletas de famílias forçadas a abandonar suas casas. “As ruas, nem te falo, é muita tristeza. Você chora vendo as barracas, as pessoas embaixo da chuva, no frio”, relata. Atualmente, ele e sua família estão em uma casa emprestada por um conhecido, mas precisam deixá-la em 10 dias ou começar a pagar aluguel. “Não sei o que eu vou fazer depois, estou perdido”, completa, expressando a angústia de um futuro incerto.

Incerteza e deslocamento: a experiência de Aly Bawab

Outro brasileiro-libanês, Aly Bawab, de 58 anos, que reside em Manaus (AM), viajou ao Líbano para visitar sua família. Ele chegou em 28 de fevereiro, coincidindo com o primeiro dia dos ataques de Israel e Estados Unidos contra o Irã. A família de Bawab também é originária do sul do país. Aly decidiu abandonar a região após presenciar o desmoronamento de um edifício atingido por um míssil israelense. Atualmente, ele está em Beirute, onde os bombardeios são uma ocorrência diária.

“É dia e noite, não tem horário. Hoje tivemos alguns momentos de paz durante o dia, apesar dos aviões militares do inimigo ficarem ultrapassando a velocidade do som para fazer um tipo de explosão no ar e assustar as pessoas”, relata Aly. Casado com uma libanesa e pai de três filhos, ele tenta manter a calma para transmitir tranquilidade à sua família, apesar do medo constante. “Medo com certeza, mas você tem que manter a calma. Mas as crianças em volta sentem. No último bombardeio, que atingiu dois apartamentos em um prédio alto aqui próximo, o corpo sentiu a vibração da explosão. O corpo treme sem você ter controle”, descreve.

Aly Bawab compartilha a dor de amigos que perderam familiares no conflito, e de outros que não conseguiram sair do Sul. “É bastante traumatizante, você vê essa situação em que você se encontra, em que as pessoas não sabem o que fazer ou quanto tempo vai durar essa guerra”, completa, ressaltando a profunda incerteza que paira sobre a vida de todos na região.

A escalada do conflito e o cenário regional no Líbano

A historiadora e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Beatriz Bissio, analisa que Israel tem adotado no Líbano uma estratégia similar à empregada na Faixa de Gaza. “É mais ou menos uma versão libanesa do genocídio em Gaza. O que Israel está propondo é repetir o genocídio, particularmente no sul do Líbano, uma vez que frustrou-se a expectativa da liderança israelense de ter aniquilado o Hezbollah”, afirma a especialista.

Os bombardeios de Israel contra o Líbano foram intensificados com o início da guerra no Irã, depois que o Hezbollah voltou a promover ataques contra Israel, no dia 2 de março. O Hezbollah alegou agir em retaliação aos ataques de Israel contra o Líbano nos últimos meses, e em resposta ao assassinato do líder Supremo do Irã, Ali Khamenei. Desde então, o conflito vem escalando a guerra no Oriente Médio. Beatriz Bissio destaca que o Sul do Líbano está arrasado pelo conflito, com aldeias destruídas e colheitas paralisadas, causando um sofrimento imenso à população civil. “É indescritível o sofrimento da população, mas também é indescritível, no sentido inverso: a resiliência e a decisão de não abandonar essa terra. Isso porque essas populações estão lá desde tempos imemoriais, já no Império Romano eles estavam lá”, pontua.

A Força de Defesa de Israel (FDI) informou ter atingido 2 mil alvos no Líbano desde 2 de março, alegando ter assassinado 570 membros do Hezbollah. “Como parte do esforço defensivo avançado, as tropas das FDI continuam as operações terrestres direcionadas no sul do Líbano”, diz o comunicado do Exército israelense. Por sua vez, o Hezbollah informa diariamente sobre seus ataques e lançamentos contra alvos de Israel, tanto dentro do Líbano quanto no Norte israelense. Somente nesta sexta-feira (20), o grupo reportou ter realizado 39 operações militares. “Os mujahidin [combatentes] da Resistência Islâmica alvejaram um tanque Merkava em Baydar al-Fuqa’ani, na cidade de Taybeh, com um míssil. Eles miraram e acertaram em cheio”, diz um dos comunicados do grupo libanês.

Contexto histórico: a relação entre Israel e Hezbollah

O conflito entre Israel e Hezbollah possui raízes profundas, remontando à década de 1980, período em que a milícia xiita foi criada em resposta à invasão e ocupação de Israel no Líbano. Naquela época, o objetivo israelense era perseguir grupos palestinos que buscavam refúgio no país vizinho. Em 2000, o Hezbollah conseguiu expulsar as forças israelenses do Líbano, consolidando sua posição e, ao longo dos anos, transformando-se em um partido político com assentos no parlamento e participação em governos.

A fase atual do confronto entre Israel e Hezbollah tem uma conexão direta com a destruição da Faixa de Gaza a partir de 2023. Em solidariedade aos palestinos e com o intuito de desgastar a Defesa israelense, o Hezbollah passou a lançar foguetes contra o Norte de Israel. Em novembro de 2024, um acordo de cessar-fogo foi negociado entre o grupo xiita e o governo do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, após Israel ter conseguido eliminar lideranças do Hezbollah. No entanto, Israel continuou com ataques e bombardeios periódicos contra o Líbano, alegando atingir infraestrutura do Hezbollah, que, por sua vez, evitava reagir de forma mais intensa. A situação se deteriorou novamente, levando à escalada atual, conforme noticiado pela Agência Brasil.

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