CPI do Crime Organizado detalha como facções e milícias se infiltram no mercado financeiro e utilizam criptoativos para lavar dinheiro, além de explorar o ambiente digital para aliciamento de crianças e adolescentes.
O relatório final da Comissão Parlamentar de Inquérito do Crime Organizado (CPI) no Senado apresentou um panorama chocante sobre a atuação de facções e milícias no Brasil. A investigação, com cerca de 220 páginas, detalha como essas organizações criminosas utilizam o sistema financeiro formal e ativos virtuais para lavar bilhões de reais.
O documento, apresentado pelo relator Alessandro Vieira (MDB-SE), aponta para um nível de sofisticação empresarial atingido pelo crime organizado. A lavagem de dinheiro é identificada como o principal mecanismo de sustentação dessas atividades ilícitas, que se valem de mercados lícitos para reciclar recursos provenientes do tráfico de drogas e armas.
As descobertas da CPI indicam uma simbiose preocupante entre grupos criminosos e operadores do mercado financeiro. O relatório também aborda a preocupante infiltração do crime em setores econômicos e o uso de plataformas digitais para aliciamento e exploração de crianças e adolescentes. Conforme informação divulgada pela CPI do Crime Organizado no Senado, o relatório foi apresentado nesta terça-feira (14).
O Uso do Sistema Financeiro para Lavagem de Dinheiro
O relator Alessandro Vieira destacou que os grupos criminosos, além de criptoativos, têm se valido do sistema financeiro formal para ocultar a origem ilícita de seus bens. O caso do Banco Master foi citado como um exemplo claro dessa prática, evidenciando a operação em conjunto de facções criminosas com operadores do mercado financeiro.
Vieira explicou que o caso Master demonstrou como facções como o PCC operam em simbiose com instituições financeiras, utilizando fundos de investimento, gestoras de ativos e bancos para lavar quantias bilionárias. Essa atuação visa também corromper agentes públicos e capturar parcelas do aparato estatal e regulatório.
A CPI constatou que a lavagem de dinheiro continua sendo o pilar para a sustentação do crime organizado. A infiltração em setores como tabaco, ouro, combustíveis, mercado imobiliário e bebidas, aliada ao uso de fintechs e criptomoedas, demonstra um grau de sofisticação empresarial que exige uma resposta estatal igualmente qualificada.
Infiltração em Setores Econômicos e Controle de Armas
O enfrentamento à criminalidade, segundo o relator, não pode se limitar ao combate ostensivo em territórios dominados. É crucial atuar sobre as cadeias econômicas que financiam essas estruturas, com foco em mercados de consumo massivo e rotas logísticas consolidadas.
Sem essa abordagem econômica e patrimonial, a repressão tende a focar apenas nas manifestações visíveis da criminalidade, preservando os mecanismos que garantem sua reprodução financeira. A CPI também ressaltou a importância do aumento da fiscalização de armas e munições, apontando falhas legislativas e de fiscalização que criam um ambiente propício a desvios.
O relatório menciona que a flexibilização das regras de posse de armas durante o governo anterior favoreceu o desvio de armamento para mãos criminosas. Medidas posteriores buscaram reverter essa flexibilização, mas o problema persiste.
Ambiente Digital: Aliciamento e Exploração Infantil
Um dos focos da CPI foi investigar o papel das plataformas digitais na criminalidade organizada. O ambiente digital é apontado como um elemento estruturante no aliciamento e exploração de crianças e adolescentes.
Plataformas como Facebook e Instagram são centrais no aliciamento, e sistemas de recomendação podem conectar usuários a redes ilícitas, inclusive de abuso sexual infantil. A atuação predominantemente passiva das plataformas, que dependem de denúncias de usuários, agrava o quadro, especialmente considerando a vulnerabilidade de crianças e adolescentes.
A SaferNet Brasil registrou um aumento de 18,9% nas denúncias de abuso e exploração sexual infantil online entre janeiro e julho de 2025, totalizando 49.336 casos, o que representa 64% de todas as denúncias de crimes cibernéticos.
Déficit Prisional e Forças de Segurança Insuficientes
O déficit alarmante de vagas no sistema prisional brasileiro, com mais de 202 mil vagas faltantes, é apontado como um grave problema, pois os presídios se tornaram a principal plataforma das facções. O Brasil possui a terceira maior população prisional do mundo, com 701 mil pessoas presas.
Para suprir esse déficit, seriam necessários R$ 14 bilhões em aportes. Além disso, o efetivo “diminuto” das forças de segurança, com a Polícia Federal operando com 40% de déficit, compromete a capacidade do Estado de detectar, investigar e reprimir atividades ilícitas.
Recomendações e Pedidos de Indiciamento
O relatório da CPI também pede o indiciamento dos ministros do STF Dias Toffoli, Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes, além do procurador-geral da República, Paulo Gonet. A base para tal pedido é o caso do Banco Master, com indícios de crimes de responsabilidade.
Adicionalmente, o relatório recomenda a decretação de intervenção federal no estado do Rio de Janeiro. Essa medida é considerada indispensável diante da infiltração do crime no Poder Público local, que compromete a autonomia e idoneidade do estado em conduzir ações de enfrentamento necessárias.


