Especialistas em geopolítica e conflitos militares expressam ceticismo sobre a durabilidade do recente cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã, sugerindo que a pausa pode ser uma tática para que o Pentágono prepare um novo ataque massivo contra o país persa. A intensa movimentação de tropas e aeronaves americanas na região alimenta essas preocupações.
A aparente trégua anunciada entre os Estados Unidos e o Irã tem sido vista por analistas como uma estratégia de “ganhar tempo”, especialmente sob a ótica da administração de Donald Trump. Essa percepção é reforçada pela contínua e significativa mobilização militar americana no Oriente Médio, que sugere um planejamento para ações futuras.
A fragilidade do acordo é evidenciada pela própria natureza da pausa, que, segundo especialistas, pode servir como um período operacional para reabastecimento de munições e unidades da Força Aérea dos EUA, visando um potencial bombardeio em larga escala ou até mesmo uma operação terrestre. A situação é vista como precária.
Essa avaliação é compartilhada por diversos especialistas em geopolítica e questões militares consultados pela Agência Brasil. Eles apontam para indicadores concretos que desmentem uma atmosfera de pacificação e, em vez disso, apontam para um cenário de escalada iminente, apesar do cessar-fogo declarado.
Mobilização Militar Colossal e Estoques de Munições em Foco
Rodolfo Queiroz Laterza, diretor do Instituto de Altos Estudos de Geopolítica, Segurança e Conflitos (GSEC), destaca a “colossal” movimentação de aeronaves americanas na região, com cerca de 500 aviões em operação, o que representa aproximadamente um quarto da frota aérea militar dos EUA. Essa mobilização, somada a uma logística “crescente” e ao deslocamento da brigada de artilharia de Washington, não condiz com uma paralisação ou um acordo genuíno.
Laterza compara a situação a padrões anteriores de intervenção dos EUA, como a operação de bombardeio massivo no Vietnã do Norte em 1972, que resultou em “terra arrasada” antes de uma declaração de vitória e retirada. Ele enfatiza que esse padrão sugere uma preparação para um desfecho semelhante.
O cientista político Ali Ramos acrescenta que os EUA possuem uma capacidade de produção anual de cerca de 90 mísseis Tomahawk e 500 a 600 mísseis Patriot. No entanto, ele aponta um “esgotamento” desses estoques, com cerca de 800 mísseis Patriot gastos apenas na primeira semana de conflito. A escassez de mísseis, que também são fornecidos a aliados como Reino Unido, Japão, Austrália e Canadá, pode ter contribuído para que ataques iranianos passassem pelas defesas aéreas.
Irã Pressionado e a Busca por Posição Estratégica
Ramos também avalia o cessar-fogo como uma pausa operacional para um novo ataque massivo. Ele menciona o transporte de mais munições para o Oriente Médio por aviões C-130, mas ressalta que os EUA podem não ter condições de sustentar uma guerra prolongada devido ao “desgaste”. Contudo, um “mega ataque” seguido de uma declaração de vitória poderia forçar o Irã a ceder mais, um padrão já observado no Vietnã.
O especialista sugere que o Irã estaria sendo pressionado pela China e por países do Golfo para aceitar o cessar-fogo. Essa pressão visaria posicionar o Irã como um ator “moderado” em uma nova realidade estratégica regional, o que explicaria a aceitação da trégua por parte de Teerã.
Israel: O Fator de Instabilidade no Cessar-Fogo
O recente ataque massivo de Israel contra o Irã é visto por Ali Ramos como uma tentativa de “implodir” o frágil acordo de cessar-fogo. Ele afirma que Israel tem “torpedeado todos os cessar-fogo” na região, motivado por uma questão de “sobrevivência” na política doméstica de Benjamin Netanyahu, que depende da continuidade da guerra para lidar com acusações de corrupção. Israel, segundo Ramos, fará de tudo para que o conflito retorne.
O Irã, por sua vez, ameaça romper o cessar-fogo devido aos ataques israelenses contra o Líbano, exigindo que a trégua se estenda a todas as frentes de batalha. Contudo, o presidente dos EUA, Donald Trump, declarou à PBS News que o Líbano não faz parte do acordo “por causa do Hezbollah”, indicando um possível descontentamento americano com a expansão do conflito.


