Visita de Trump à China em meio a guerra no Irã: um complexo tabuleiro geopolítico com potencial para o Brasil.
A visita do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, à China para um encontro com o presidente Xi Jinping, que ocorreu na noite desta quarta-feira (13), capturou a atenção global. O evento acontece em um momento de instabilidade internacional acentuada pela guerra no Irã, afetando relações diplomáticas e a economia mundial.
A disputa comercial e tecnológica entre Washington e Pequim, com os EUA buscando preservar sua liderança econômica, tem sido um ponto central. A China, vista como uma ameaça, foi alvo de tarifas impostas por Trump. Contudo, a reação chinesa, incluindo restrições à exportação de terras raras, forçou o recuo americano.
A ofensiva americana contra o Irã, lançada no final de fevereiro, também impactou os interesses de Pequim, principal consumidora do petróleo iraniano e que busca a reabertura do Estreito de Ormuz. Analistas consultados pela Agência Brasil sugerem que o Brasil pode se beneficiar dessa disputa comercial e tecnológica, dada sua segunda maior reserva de minerais críticos do mundo.
Trump chega enfraquecido a Pequim, avaliam analistas
O encontro entre Trump e Xi Jinping, inicialmente agendado para o final de março, foi adiado devido à guerra no Oriente Médio. Marco Fernandes, analista geopolítico e membro do Conselho Popular do Brics, avalia que Trump subestimou a resistência iraniana, chegando a Pequim em uma posição de fraqueza.
“Ele achou que chegaria a Pequim com todas as cartas na mão para pressionar Xi, mas faltou combinar com os iranianos. Agora, Trump está chegando derrotado. Nunca um presidente dos EUA chegou em uma reunião com um presidente da China tão enfraquecido e desmoralizado como Trump agora”, afirmou Fernandes.
O analista também destacou que mesmo ideólogos americanos, como o neoconservador Robert Kagan, reconheceram a derrota de Trump na tentativa de derrubar o regime iraniano. Apesar disso, a China busca pressionar pelo fim da guerra no Oriente Médio, considerando a triangulação diplomática com Moscou e Teerã.
Taiwan e a disputa por influência global
A venda de armas dos EUA para Taiwan, província autônoma com aspirações de independência, é outro ponto de atrito que Trump pretende discutir com Xi Jinping. Pequim mantém sua política de “uma só China” e se opõe firmemente ao reconhecimento de Taiwan como nação independente.
O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Guo Jiakun, reiterou a posição chinesa: “A firme oposição da China à venda de armas americanas para a região de Taiwan, território chinês, é consistente e clara”.
José Luiz Niemeyer, professor de Relações Internacionais do Ibmec, prevê que a China exigirá dos EUA que não incentivem, de forma alguma, uma Taiwan independente. A discussão se concentrará nos limites de atuação de cada país em suas áreas de interesse estratégico.
Terras raras: o trunfo do Brasil na disputa EUA-China
O tema das terras raras, minerais essenciais para as indústrias militar, tecnológica e de transição energética, deve dominar as conversas. A China lidera a produção desses insumos, e os EUA dependem de minerais como samário e neodímio, fundamentais para sua indústria bélica.
Marco Fernandes aponta que o Brasil possui a segunda maior reserva de minerais críticos do mundo, com cerca de 22%, atrás apenas da China. Essa posição estratégica pode ser utilizada por Brasília para obter ganhos políticos e econômicos.
“Cada vez que há mais crise do ponto de vista de fornecimento de produtos entre os EUA e China, o Brasil pode aproveitar para exportar os produtos que estão em litígio entre os dois países, como por exemplo, minerais de terras raras”, explicou Niemeyer.
Fernandes acrescenta que o Brasil precisa se posicionar de forma soberana no meio dessa disputa, buscando acumular vantagens para seus próprios interesses. A China, por sua vez, implementou recentemente uma lei anti-sanções, demonstrando uma postura mais assertiva em relação às medidas americanas contra empresas chinesas que negociam com o Irã.


