Crise no Mali: Jihadistas cercam Bamako e ameaçam Aliança Sahel, com acusações de interferência ocidental e apoio russo
O Mali, peça-chave da Aliança dos Estados do Sahel (AES), encontra-se sob intensa pressão. Grupos jihadistas, incluindo um ligado à Al-Qaeda, intensificaram o cerco à capital, Bamako, em uma ofensiva que ameaça desestabilizar toda a região do Sahel.
Essa nova escalada de violência ocorre em um contexto de crescente nacionalismo e afastamento da influência ocidental, especialmente da França. A formação da AES, composta por Mali, Níger e Burkina Faso após golpes militares, marcou uma virada política e econômica, buscando maior autonomia e parcerias alternativas.
A situação atual levanta sérias preocupações sobre a segurança e a estabilidade de uma região rica em recursos naturais, mas assolada pelo terrorismo. As acusações formais do Mali contra a França e o envolvimento de potências ocidentais e orientais adicionam camadas de complexidade ao conflito, conforme aponta a Agência Brasil.
Ofensiva jihadista e cerco a Bamako
Em 25 de abril, ataques coordenados do Grupo de Apoio ao Islã e aos Muçulmanos (JNIM) e da Frente de Libertação do Azaward (FLA) resultaram na tomada de cidades importantes no Mali, como Kidal, e no assassinato do ministro da Defesa, Sadio Camara. A estratégia dos grupos terroristas, segundo o historiador Eden Pereira Lopes da Silva, pesquisador do NIEAAS, é clara: montar barreiras para forçar a rendição do governo de Assimi Goïta.
Este cerco não é novo, mas sua intensificação coloca em risco o abastecimento da capital. A queda do Mali, considerado o país mais extenso territorialmente na região, poderia criar uma situação de instabilidade sem precedentes, comparável a uma “Líbia dentro do Sahel”, afetando diretamente Burkina Faso e Níger, e com repercussões em países vizinhos como Gana e Costa do Marfim.
A Aliança Sahel e o afastamento da França
A Aliança dos Estados do Sahel (AES) foi formada após uma onda de golpes militares em 2020, 2022 e 2023, que levaram ao poder governos com forte apoio popular e discursos nacionalistas. Uma de suas principais bandeiras tem sido o afastamento da influência da França, antiga potência colonial.
Essa mudança de orientação política e econômica resultou na expulsão desses países da Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (Cedeao). Sem acesso ao mar e enfrentando o isolamento político, os países da AES buscam novas alianças, inclusive militares, como a parceria com a Rússia.
Acusações ao Ocidente e o papel da Rússia
O governo maliano acusou formalmente a França de apoiar e financiar grupos terroristas, apresentando denúncias ao Conselho de Segurança da ONU. Segundo o Mali, a França teria utilizado o espaço aéreo maliano para coletar informações e fornecer armas aos terroristas. A França nega veementemente as acusações, relembrando seu envolvimento de nove anos na luta contra o terrorismo na região, que custou a vida de 59 soldados franceses.
Analistas como o jurista Hugo Albuquerque sugerem que a ofensiva contra o Mali, Burkina Faso e Níger tem “o dedo do ocidente”, visando desestabilizar os regimes nacionalistas que ameaçam planos ocidentais de exploração de recursos naturais e projetos de infraestrutura, como o gasoduto da Nigéria.
Em contrapartida, os países da AES têm buscado e recebido apoio militar da Rússia, através de grupos como a África Korps, ligada ao grupo Wagner. No entanto, o envolvimento russo ainda não conseguiu reverter a expansão dos grupos paramilitares, que demonstram força ao cercar Bamako.
Objetivos dos grupos jihadistas e a disputa por recursos
O JNIM, braço da Al-Qaeda no Sahel, almeja a implantação de um califado islâmico baseado na Sharia, com um Estado que abranja não apenas o Mali, mas também partes de Burkina Faso e Níger. Já o FLA, formado por grupos tuaregues, luta pela criação de um estado exclusivamente para a população tuaregue, tendo historicamente atuado em favor da França.
A região do Sahel é rica em recursos naturais como ouro e urânio, o que, segundo o historiador Eden Pereira Lopes da Silva, gera interesses para sua desestabilização. Ele aponta para uma coordenação entre potências europeias e possivelmente os Estados Unidos para enfraquecer esses estados. Hugo Albuquerque complementa, mencionando o possível apoio de monarquias do Oriente Médio, como Catar e Emirados Árabes Unidos, a grupos jihadistas que serviriam a interesses ocidentais, especialmente europeus, afetados pela guerra contra a Rússia.
O presidente de Burkina Faso, Ibrahim Traoré, um dos líderes mais proeminentes da AES, classifica o terrorismo no Sahel como uma manifestação do imperialismo. Ele defende que, com o fim da guerra e a construção de um exército forte, será possível dedicar-se ao desenvolvimento da pátria, em uma clara demonstração da busca por soberania e autonomia na região.


