Entidades denunciam golpe eleitoral nos EUA que pode beneficiar Trump
Organizações proeminentes do movimento negro e de direitos civis nos Estados Unidos expressaram profunda preocupação e indignação após a recente decisão da Suprema Corte, de maioria conservadora, que anulou o mapa eleitoral do estado de Louisiana para o Congresso.
A medida, que altera a forma como os distritos eleitorais são desenhados, é vista por muitos como um retrocesso significativo na luta pela igualdade no voto e um movimento orquestrado para manipular o sistema eleitoral em benefício de políticos republicanos, incluindo Donald Trump.
A decisão da Suprema Corte, que derrubou o mapa eleitoral de Louisiana, é acusada de minar a Lei dos Direitos de Voto e silenciar comunidades inteiras, especialmente eleitores negros. Conforme divulgado por entidades como a NAACP e a National Action Network, a democracia americana clama por socorro diante de tal cenário.
Democratas e Movimento Negro Reagem Fortemente
O presidente da Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor (NAACP), Derrick Johnson, classificou a decisão como um “golpe devastador” e uma “licença para políticos corruptos” que buscam manipular o sistema. Ele lamentou que a Suprema Corte tenha “traído os eleitores negros, traído a América e traído nossa democracia”.
A decisão, por seis votos a três, baseou-se na alegação de que o mapeamento dos distritos em Louisiana se baseou excessivamente em critérios raciais. Isso levará à modificação de dois distritos com maioria negra, com o potencial de alterar a composição política do estado no Congresso.
O Reverendo Al Sharpton, presidente da National Action Network, declarou que a decisão “desmantelou” o trabalho de Martin Luther King Jr. Ele comparou a ação a uma “bala no coração do movimento pelos direitos de voto”, afirmando que “o Dr. King não marchou pela Ponte Edmund Pettus para que seis juízes em Washington pudessem desfazer silenciosamente o que foi conquistado com sangue”.
Trump Celebra Decisão e Encoraja Mudanças em Outros Estados
Em contraste com as reações de indignação, o presidente Donald Trump celebrou abertamente a decisão da Suprema Corte. “Esse é o tipo de decisão que eu gosto”, declarou a jornalistas na Casa Branca.
Trump agradeceu ao governador de Louisiana, Jeff Landry, por levar o caso à Suprema Corte e agir rapidamente para corrigir o que chamou de “inconstitucionalidade dos mapas eleitorais”. Em sua rede social, ele também encorajou o governador do Tennessee a mudar os distritos eleitorais para beneficiar os republicanos.
“Isso deve nos dar uma cadeira a mais e ajudar a salvar nosso país dos democratas da esquerda radical e de suas políticas destrutivas”, afirmou Trump, indicando uma estratégia clara para capitalizar a decisão em outros estados.
O Que é o Gerrymandering e Como Ele Pode Afetar as Eleições
A prática denunciada é conhecida como gerrymandering, que consiste na manipulação dos limites dos distritos eleitorais para favorecer um partido político. Diferentemente do sistema proporcional brasileiro, os EUA utilizam o modelo distrital, onde o candidato precisa da maioria dos votos em um distrito específico para ser eleito.
Ao redesenhar os distritos, é possível diluir ou concentrar eleitores de determinada afiliação política. Por exemplo, um distrito majoritariamente negro, que tenderia a eleger um representante democrata, pode ser dividido, e sua população diluída em distritos vizinhos com maioria de eleitores brancos e conservadores.
Analistas apontam que essa mudança em Louisiana pode beneficiar os republicanos, especialmente em um momento em que Trump busca reverter sua queda de popularidade. A decisão abre espaço para que outros estados alterem mapas eleitorais em distritos de maioria negra e latina, que historicamente votam mais em democratas.
Impacto nas Próximas Eleições e Ações Legais
A decisão da Suprema Corte em Louisiana pode ter um impacto significativo nas eleições legislativas de meio de mandato em novembro deste ano e nas eleições presidenciais de 2026. O governador de Louisiana já cancelou as primárias para permitir a alteração dos mapas eleitorais antes da votação.
A União Americana pelas Liberdades Civis (ACLU) classificou a decisão como “vergonhosa”, alertando que políticos contrários ao direito ao voto interpretarão isso como um “sinal verde” para novas restrições. A organização luta para que os eleitores decidam quem os representa, e não o contrário.
Embora algumas alterações possam ser implementadas para as eleições de 2026, o professor James N. Green, da Universidade de Brown, aponta que o impacto maior ocorrerá em 2028 ou 2030, nas eleições presidenciais, evidenciando a longa duração das consequências dessa decisão para a democracia americana.


