Entre a fé e a política, o risco da intolerância disfarçada de discurso democrático
O artigo publicado no portal Brasil 247 parte de um ponto legítimo — o debate sobre o uso político da religião —, mas acaba escorregando para uma generalização problemática que flerta com a intolerância. Ao tratar a participação de religiosos na política como “instrumentalização” ou ameaça à democracia, o texto ignora um princípio básico: cidadãos não deixam suas convicções na porta da vida pública.
A crítica à atuação de grupos religiosos no campo político é apresentada de forma ampla, como se qualquer manifestação de fé na esfera pública fosse indevida ou manipuladora. Esse raciocínio, porém, confunde práticas abusivas com o exercício legítimo da liberdade de expressão e de consciência — pilares de qualquer democracia.
Estado Laico vs Estado Ateu
O problema central está na interpretação distorcida do conceito de Estado laico. Um Estado laico não é um Estado ateu. Ele não proíbe a presença de valores religiosos no debate público, mas impede que uma religião específica se torne oficial ou imponha suas regras ao conjunto da sociedade. A laicidade garante justamente o oposto do que o texto sugere: permite que diferentes visões — inclusive religiosas — coexistam e disputem espaço democraticamente.
Ao insinuar que a fé deve ser afastada da política, o artigo acaba defendendo, ainda que indiretamente, uma forma de exclusão. Isso porque milhões de brasileiros têm sua visão de mundo moldada por valores religiosos, e negar a eles o direito de expressar essas convicções no campo político equivale a restringir sua participação democrática.
Além disso, o texto parece ignorar que a própria história da política é permeada por valores morais e éticos, muitos dos quais têm raízes religiosas. Pretender uma neutralidade absoluta — onde crenças pessoais não influenciam decisões políticas — não apenas é irreal, como também empobrece o debate público.
Narrativa Perigosa: “Nós contra Eles”
Ao transformar adversários ideológicos em ameaça à democracia, o artigo reproduz exatamente a lógica que diz combater: a polarização que demoniza o outro lado. Em vez de promover pluralidade, acaba reforçando uma visão única do que seria aceitável no espaço político.
No fim, a defesa da democracia não pode passar pela exclusão de vozes religiosas, mas pela garantia de que todas — religiosas ou não — possam se expressar dentro das regras do jogo democrático. Qualquer tentativa de silenciar uma dessas dimensões representa, ela própria, um risco à liberdade que se pretende proteger.


